Quisera

E que todo acorde fosse um grito
Todo jardim uma conversa
Todo estilo uma aventura
Toda poesia uma promessa

Acordar, e aquela neblina esparsa
Secasse ao sol dos seus olhos sobre os meus
Que agonia fosse apenas a da espera
De te ver chegar… e ficar

Não rimo, não sou métrica
Sou hipermétrica
Assimétrica
Como em tudo, também no amor
E nos teus braços

Brincadeira tola com palavras
Labirinto
Empregando e emprestando sentido
Ao que tem aqui dentro do peito

Que é seu e só seu
E só meu e só meu.

Amor.

publicado em Novembro 3, 2008 às 2:01 pm
nas categorias Eros, Inspirações súbitas
Bete Bee

A primeira vez

Noite chuvosa, numa cidade grande em que eles estavam pela primeira vez, e da qual não conheciam nada. Foram no cinema assistir um desses filmes sobre jovens bruxos ingleses que vão à escola. O dente dela começou a doer. Muito, não pouco. Logo no fim da sessão.

Saíram do filme, direto para farmácia. Anti-inflamatório, analgésico comum. E se não resolvesse, ela tinha Tylex na bolsa. Nada como um derivado de morfina numa noite chuvosa. Ela tomou os comprimidos ali mesmo, com um pouco de água. E esperou.

Andaram até o flat. Deram sorte do hotel que reservaram na verdade ser um flat, com uma pequena cozinha, e uma mesa de granito, bonita. No meio do caminho a dor piorou. E já viu a situação. Cidade estranha, noite chuvosa, ela sem plano odontológico. E onde ficava a emergência odontológica mais próxima mesmo? Chegaram no hotel um pouco úmidos da garoa, e ela correu até o Tylex, tomando logo dois de vez. Nunca tinha ouvido falar em overdose de codeína.

O pior é que a dor não passou; e veio a iluminação. Em cima da geladeira tinha uma garrafa de rum. Veio-lhe à mente todos os séculos nos quais não existiam analgésicos, e o álcool era a maneira mais confiável de mitigar as dores do corpo e da alma. Rum seria, então. Se funcionava com os piratas, funcionaria com ela.

Não queria tomar rum puro, era meio abusivo. Gostava de misturas, de alquimia. Tinha comprado cerejas, frutas cerejais apetitosas e vermelhas. Amassou algumas num copo e misturou com rum puro. Hoje em dia teria misturado bastante gelo, açúcar e de repente um pouco de água, mas na época ainda não tinha as manhas.

Tomou o primeiro copo. Não sentiu nada, apenas o gosto do álcool queimando a garganta, e um residual gosto de cereja. Não era fruta que se prestasse a isso; boas eram as frutas tropicais de sua terra, carnudas, suculentas. Cerejas eram frutas delicadas e meio secas. Mas era o que tinha. Antes tivesse misturado o rum um para um com coca-cola. Mas era tarde. E não sentiu nada. Aí resolveu fazer mais um.

Era fraca para álcool. Depois do segundo copo um certo bem-estar começou a tomar conta de seu corpo, e a dor começou a ir embora. Resolveu garantir, e encheu mais um copo de rum, desta vez puro. Bebeu. Botou mais um para garantir de novo, de verdade. Bebeu. Em setenta e quatro segundos, estava bêbada.

Na manhã seguinte, tentando resgatar os pedaços despedaçados da memória, ela veria que tinha tomado quatrocentos mililitros de rum, sozinha, em menos de dez minutos. E a partir dali, a noite foi uma sucessão de revelações.

Acordou cinco horas da manhã, com um pouco de luz se infiltrando no quarto. Sem sono, sem dor de cabeça, sem náuseas, sem secura na boca, e com tesão. Foi aí que descobriu uma das coisas mais importantes de sua vida: tinha herdado o fígado imortal do pai. Agarrou o corpo moreno que estava ao seu lado com a mesma fúria de sempre. Ele se espantou, mas a acolheu com a paixão de sempre. Percebeu que estava com uma camisola que não estava vestindo depois do quarto copo de rum, que foi o último momento do qual ela lembrava. Mas tinha flashes da madrugada, a maioria deles bastante eróticos. O resto era um nada absoluto.

Ela se lembrava de ter acordado de madrugada e ido até o banheiro fazer xixi. Depois do xixi, pegou o chuveirinho para se limpar, e de alguma forma começou a rir porque estava molhando todas as paredes do banheiro ao seu redor. Crise de riso. Ele acordou assustado e tentou entrar no banheiro para salvá-la de seja lá o que estivesse acontecendo, mas ela expulsou o intruso com veemência, batendo-lhe a porta na cara. Era falta de educação entrar no banheiro quando você estava sentado seminu no vaso. E continuou rindo, meio molhada, por alguns minutos.

Mas de tudo isso ela só lembrava flashes. O resto era breu.

Lembrava também que tinham feito amor. E que ela havia chorado durante, de tanta intensidade. E que eles haviam conversado. Ou era ela quem falara o tempo todo? Não lembrava. Tudo estava escuro e enevoado, as informações fugidias, escorregadias. Ela sentia sua presença, mas elas saíam de seu alcance como bailarinas de fumaça.

Quando ele acordou pela segunda vez, ainda com o corpo suado, e impregnado do cheiro dela, do gosto dela, do gozo dela, contou a ela o que tinha acontecido, preenchendo suas memórias com uma expressão de maravilhamento que a fez amá-lo ainda mais.

Depois do quarto copo de rum ela tinha começado a rir, e rir, e conversar, e falar várias coisas; andara tropegamente até a cama e começara a narrar para ele a história deles, resumidamente, como se ele fosse um estranho que não soubesse de nada. E ela chorara, porque a história era dolorida, mas ela já não sentia dor nenhuma, mas mesmo assim chorava, porque tudo continava triste assim mesmo.

E no meio da narração ele a tomara nos braços, e beijara suas lágrimas, e eles fizeram amor lentamente, e ela bêbada tagarelava, e narrava tudo que estava acontecendo para ele, como se ele não estivesse lá. E ela descrevia tudo que estava sentindo, cada pico de prazer, cada respiração ofegante, como se ele não estivesse ali recebendo o hálito dela entre os lábios. E ele gostara, e se enfiara nela com um empenho renovado, degustando cada palavra e cada gemido. E no final, a vestira, e dormiram espalhados e cansados.

E ela só acordara às cinco da manhã, com aqueles fragmentos de memória e aquele prazer secreto pulsando entre as pernas.

Até hoje aquele dente - aquele - nunca mais doeu.

publicado em Setembro 17, 2008 às 7:16 pm
nas categorias Eros
Bete Bee

Cheiros

Eu sempre achei que era uma mulher de perfumes cítricos. Hoje descobri que não é bem assim. Mas o engano está tanto no nariz quanto nas definições. Até porque eu descobri que os perfumes se dividem nas seguintes categorias:

:: Cítricos

:: Lavanda

:: Musk

:: Floral Bouquet

:: Floral Frutal

:: Floral Verde Fresco

:: Floriental Amadeirado

:: Floriental Ambarado

:: Floriental Frutal

:: Floriental Gurmand

:: Chypre Amadeirado

:: Chypre Ambarado

:: Chypre Fresco

:: Fougère Amadeirado

:: Fougère Ambarado

:: Fougère Aromático

:: Fougère Fresco

:: Amadeirado Amadeirado

:: Amadeirado Fresco

:: Amadeirado Especiado

:: Oriental Ambarado

:: Oriental Especiado

:: Oriental Frutal

E aí eu fui olhar exemplos de determinados perfumes que eu gosto, e aí vi que sim, eu gosto dos cítricos, mas também de um musk, um floral verde fresco, um fougère amadeirado e um fougère fresco (no meu homem), e um oriental ambarado.

A gente não sabe é de nada…

Uso muito perfumes, para não enjoar. Ao longo dos anos desenvolvi paixões por algumas fragrâncias, e é incrível como eu me lembro de momentos em que usei cada um deles. É uma memória do olfato que nunca julguei ter, mas que aparece nos momentos menos esperados.

publicado em Agosto 18, 2008 às 6:24 pm
nas categorias Inspirações súbitas
Bete Bee

Despacho

Ai, eu ando tão assim
Cheia de perdas de coisas, e carteiras
Cheia de idéias que não tive
De esquecimentos, de ih, era hoje, de prazos não cumpridos
De protelamentos
Folhas caindo no chão ao atravessar a rua
Coisas se prendendo nas beiradas
Despencando à minha passagem
Confusão, confusão
Sensação de fazer tudo que não devia
Como não devia
O pensamento vai para um lado
E as idéias para o outro
E eu perdida no meio desse desencontro
Sem carteira, sem vontade
Sem saber o que está errado
Se é só coisa de mulher e hormônio
Essa vontade de chorar, essa tristeza
Ou se eu não me encontro mesmo
Nesse mundo de doideira e correria
E eu penso que bom mesmo era correr daqui
Ir pro mato, sem relógio, sem compromisso
Sem sugação de sangue e energia
E conseguir ar puro e sol, e céu, e luar
E quem sabe achar alguma sabedoria/bateria
Alguma resposta
Algo que eu não acho entre as minhas coisas que caem
Entre a minha confusão.

publicado em Agosto 1, 2008 às 10:26 am
nas categorias Resmunguescências
Bete Bee

Criação

“Olha, é uma borboleta”

“É, mas ela é uma mistura de cinza e neon roxo. Não dava para você fazer uma mais normalzinha não?”

“Porra de normalzinha!!!”

Ela precisava criar, criar, criar. Todo dia a mesma coisa, trabalhava uma parte do dia, e na outra parte, criava. Nos dias em que trabalhava o dia todo, lia. Nos intervalos, nas escapadas; sempre existia uma. Nesses preciosos minutos, ela mergulhava de cabeça, em queda livre, em debandada, no mundo dos outros. Nos mundos dos mundos. E lá ela absorvia, extraía, processava, guardava. Tudo, todos. E depois… Criava, uma mescla de tudo que existia, como um pequeno liquidificador. A mente girava e as idéias saíam, tensas, matizadas, cheirosas.

Nos dias de criação o quarto ficava fechado, mas, pelas frestas, as músicas sempre saíam. Era o pano de fundo, o clima, a base de tudo. E de lá saíam aquarelas, pinturas bobas, cartões, letras de música, melodias, receitas de bolo, drinques, novas formas de arrumar os livros, novos surtos de jogar coisas e pessoas fora, novas crises de ciúme. E palavras, palavras, palavras, muitas palavras. Formas de interpretar o mundo. De dar banho em gatos. De escovar os cabelos. De olhar o tamanho de um fígado. De matar uma bactéria. Novos óculos verdes para só enxergar coisas vivas. Às vezes uma imagem modificada. Para melhor, para pior, embelezada, distorcida, enlouquecida. E as idéias surgiam, e vinham, e se jogavam sobre ela, e ela não podia correr, nem fugir, pois elas sempre lhe acompanhavam, grudadas com superbonder, até que algo se concretizasse. E nunca estava sozinha. As plantas, os gatos, as vozes e o papagaio lhe faziam companhia.

Não ficava em paz se não criasse. Descobriu que quando criava ficava mais tranquila, menos ansiosa e infeliz. Passara por um longo inverno de esterilidade, se reconstruindo, refazendo seu mundo e sua quintessência, e agora a primavera chegara e com ela aquela força que a empurrava para a frente, criando. Mesmo que às vezes as crises existenciais surgissem e ela se perguntasse para quê aquilo tudo que só ela via, ela ou muito poucos, para quê tudo aquilo que para nada servia. Mas aquilo era ela, e se alguém gostasse, ou ela gostasse, então tinha cumprido sua função no mundo. Viera para criar. Para gerar sonho, sorriso, fogo, e risadas. E risadas. E risadas. E certezas.

É uma borboleta? É! É uma borboleta. Mas também é uma lagarta que já foi lagarta. E agora é borboleta. É nisso que ela pensa agora. Faz algum sentido? Nem precisa. Ela pensa que tudo na vida é um contínuum, uma metamorfose. E que tudo que ela criar vai um dia amadurecer, ou regredir, que tudo isso, uma vez que saia dela, fará parte do mundo, o mundo e seus giros, e suas reviravoltas, e seu eterno retorno.

Ela cria.

Ela cria.

publicado em Julho 3, 2008 às 3:07 pm
nas categorias Disfunções
Bete Bee

Sonho de uma noite de verão

sunset

Ato 1 Cena 1

Cenário: Praia genérica, ao anoitecer. Surgem as primeiras estrelas.

Personagens: Des, Smith, Figurantes passando esporadicamente.

Des e Smith caminham perto da linha da água. Ela de vestido branco comprido, ele de calça preta, sem camisa. Ambos emburrados.

Ouve-se o barulho das ondas ao fundo. Vento frio.

D - Você disse que não gostava de praia.

S - Eu não gosto.

D - Então por que veio?

S - Queria estar com você. Acho que é um bom motivo. Se você quiser, eu vou embora. (close. vêem-se lágrimas em seus olhos)

D - Porque está chorando?

S - Não aguento mais essa situação. Amo você e não posso lhe ter. Quero você, nunca quis tanto algo na vida. Mas quero inteira, não apenas parte.

D - (Silêncio por alguns minutos. Suspira.) Eu não queria que chegasse nesse ponto, era o que eu menos queria. Não sofra por minha causa.

S - Eu sei que eu não devia sofrer. Minha mente fica dizendo que você fez tudo de propósito, para brincar comigo. Não consigo tirar essa idéia da mente. Ela me transtorna. Estou enlouquecendo.

D - Porque a gente parou de se ver você acha que eu só queria brincar com você? Você sabe por que eu fiz isso.

S - Não adianta argumentar. Fico pensando que se você não quisesse me magoar realmente teria ficado comigo.

D - Você até que é bem cínico para alguém que prometeu nunca me cobrar nada. (amargura na voz)

S - Mas eu não sabia ainda que você era uma maldita que gosta de brincar com o coração das pessoas! Eu não fui o primeiro, admita. Você dá o primeiro gosto e depois vai embora deixando o trouxa, no caso eu, para trás!

D - (Começa a chorar devagar, em silêncio. Anda mais rápido). Vá embora! Você não tem o direito de falar assim. Se era para isso, porque veio?

S - (Gritando). A verdade dói, não é? Corra, vá correr de novo para os braços dele. E reze para ele ainda querer você de volta! Seria bem feito para você se ele não quisesse! (Começa a correr atrás dela).

D - (Continua correndo, chora em desespero)

S - (Alcança-a correndo, derruba-a no chão, a areia voa. Abraça-a com força, apesar da resistência, joga o peso do corpo sobre ela para evitar que ela levante). Amor, escute.

D - Escutar o que? O que você quer? Me largue! (se debate)

S - Fique quieta, por favor. Escute. Desculpe. Não sei porque disse aquilo. Eu estou enlouquecendo. Eu amo você. Demais, tanto, que está transbordando. Tanto que tento lhe ferir para aplacar a minha dor, ou para não estar só na dor… Desculpe, mil vezes desculpe.

D - Não, vá embora. Não quero ouvir mais nada. Não mereço isso!

Smith a beija, com força. Ela para de falar. Retribui o abraço, o beijo, mas há raiva. Os dois continuam chorando.

Fade Out

CENA 1 ATO 2

Smith e Des estão deitados lado a lado, na areia, no local em que caíram. Ambos olham para cima, para o céu. Os corpos não se tocam mais. Barulho de mar.

S - Me desculpe.

D - Não.

S - Por favor.

D - Não.

S - Eu fui um idiota completo. Disse um monte de besteiras. Me perdoe.

D - Concordo. Mas dessa vez não vou lhe perdoar.

S - Onde você está morando?

D - Não lhe interessa.

S - Por que você sumiu daquele jeito?

D - Você ainda pergunta?

S - Não deixou telefone, notícia, nada. Passei dois meses que nem um maluco lhe procurando.

D - Eu disse que ia mudar, que ia ficar sem telefone.

S - Mas sumiu sem deixar rastro.

D - Nem tanto. Você me achou.

S - Deu um trabalho da desgraça.

D - Por que veio? Para me agredir?

S - Não consegui esquecer você. Você termina com ele e some da minha vida. O que você queria que eu pensasse?

D - Eu precisava esquecer. De tudo. De que terminei com ele porque escolhi a carreira ao invés do compromisso.

S - Precisava sumir daquela forma?

D - Sim.

S - Não pensou no que ia ser de mim?

D - Achei que seria melhor para você. Afinal, eu fui embora de lá.

S - Eu lhe fiz uma promessa, esqueceu?

D - Não. Só está aqui para isso, então? Veio matar a vontade.

S - Sim e não. Quero ter você, essa vontade me corrói. Mas queria saber como você estava, se estava bem. Estava morto de saudades. E ninguém me dizia onde você estava. Então fiz o diabo para conseguir.

D - Quem foi o delator?

S - V.

D - (Silêncio. Estremece de frio)

S - Por que o tremor?

D - Frio. (Começa a se levantar, e tirar o vestido)

S - (Incrédulo) O que vc vai fazer, sua louca?

D - Nadar.

S - Com frio?

D - Preciso esfriar a cabeça.

S - Quer que eu vá embora?

D - Na volta eu te digo. (Se atira no mar, começa a nadar para fora)

S - (Para si mesmo) Mulher louca. (Sorri e fica observando)

D - (Retorna após dez minutos, pingando, gelada) Levante. Vamos conversar decentemente. Moro bem perto.

Saem caminhando.

CENA 2 ATO 1

Cenário: Interior de um apartamento. Sala. Paredes brancas, penumbra cortada por um abajur ligado, emitindo uma luz azulada que se irradia pela sala. Poucos móveis: uma mesa, 3 cadeiras, um sofá azul escuro, televisão. Um gato listrado dorme sobre a mesa. Nas paredes, quadros surrealistas. Um celular pisca na penumbra.

Barulho de chave na porta. A porta se abre. Os dois entram.

D - Vou lhe dar uma toalha. Venha por aqui.

(Andam pela casa, ela entra num banheiro, abre um armário e tira uma toalha, entrega a ele).

S - Obrigado. Tomo banho aqui mesmo?

D - Sim. Eu uso o banheiro do quarto. Me espere na sala quando terminar.

Fade out

CENA 2 ATO 2

Smith anda pela casa, observando. Está com outra roupa, calça preta, camisa branca, casaco preto. Temperatura no termômetro de parede: 12ºC.

O gato o observa.

Des retorna, calça e blusa preta, casaco verde escuro, cabelo molhado.

D - Gostou?

S - Ahã.

D - Não está com vontade de redecorar, está?

S - (Sorri) Você nao mudou nada.

D - É? Bom, seis meses nao mudam ninguém.

S - Depende do quanto você sofre nesse meio tempo.

D - Eu já sofri muito antes, nao é agora que ia mudar alguma coisa.

S - (Senta no sofá) Sente aqui.

D - Estou bem em pé.

S - Sente aqui, teimosa! Está com medo?

D - Não. Mas não pense que lhe perdoei pelo que disse.

S - Quantas vezes vou ter que pedir desculpas?

D - Não sei.

S - Droga! Estou com fome, para variar.

D - Quer comer algo?

S - Seria bom.

D - Venha.

Fade out

CENA 2 ATO 3

Cenário: Cozinha asséptica. Branca, com leve luz azulada cortando a penumbra.

Smith está sentado sobre uma mesa, Des procura algo na geladeira. Retira um pacote, coloca no microondas, liga.

Senta numa cadeira perto dele.

S - Como está a vida?

D - Corrida.

S - Não peguntei sobre isso.

D - O que você quer que eu diga?

S - (Sorri) Que sentiu minha falta já é um bom começo.

D - E se eu disser que não?

S - Vai estar mentindo.

D - Você também não mudou.

S - Pode ser.

A campainha do microondas apita. Des levanta, tira o pacote, abre e coloca o conteúdo no prato.

Como isso é irrelevante, o conteúdo não é mostrado. Des leva o prato até ele. Ele come.

Ambos em silêncio. Ele termina.

S - Estava bom, obrigado. Quando é que você vai matar o resto da minha fome?

D - Antes você não era tão brutal.

S - Antes eu não estava tão obcecado por você.

D - Não acredito que você só veio para isso.

S - Não foi só para isso. Mas acho que vai lhe fazer bem uma experiência nova (sorriso malicioso).

D - E para você?

S - Confesso que vai acalmar meu coração.

Toca o telefone na sala. Des levanta e se dirige à sala. Atende o telefone. Caminha até o quarto, mexe em alguns papéis numa mesinha enquanto fala com alguém. Smith entra, senta na cama, olha ao redor. Levanta, abre a janela, senta de novo. Está inquieto.

Des senta em frente à mesa, confere papéis. Termina a conversa, desliga.

Fade out

CENA 3 ATO 1

Cama. Ambos deitados, lado a lado, de frente um para o outro. Se beijam. Flashes começam a se suceder, movimentos harmônicos, sincronizando-se, sucedendo-se. Flashes, flashes.

Fade out

CENA 3 ATO 2

Cama. Deitados lado a lado. Ela de olhos fechados, aninhada no ombro dele. Ele com olhar distante, mas sereno.

S - Sometimes I think I am a mistake.

D - (Sonolenta, ainda de olhos fechados) Why?

S - I have changed your life.

D - And so?

S - Maybe it wasn’t right.

D - Maybe. But even if it wasn’t right, you’re still my favorite mistake.

S - (Faz silêncio. Fecha os olhos)

Fade out

FIM

publicado em Junho 26, 2008 às 12:09 pm
nas categorias Eros
Bete Bee

Mãe Amélia

[em construção]

O nome da minha mãe era Mãe Amélia, porque ela era mãe-de-santo. De verdade. Quando eu era pequeno ficava com ciúme porque todo mundo chamava ela de mãe. Aí eu descontava a raiva nas galinhas de macumba, nos potes de barro, nos tambores, nas roupas dos orixás, morrendo de medo do Exu-sete-caveiras vir puxar meu pé de noite.

publicado em Junho 25, 2008 às 4:38 pm
nas categorias Inspirações súbitas
Bete Bee

Modus operandi

Quando escrevo sou possuída por pequenos demônios das palavras e eles me atormentam até eu acabar, mas eu nunca sei o que eles vão dizer. Assim, fico curiosa até descobrir como meus próprios textos vão terminar.

publicado em Junho 25, 2008 às 4:24 pm
nas categorias 1, Disfunções
Bete Bee

Sobre cães e gatos

Ela chegou em casa e estava tudo cagado. De verdade. Cocô de gato. E não era cocô assim à vista, não, tudo estava escondido daquele jeito obcecado que os gatos usam para esconder suas dejeções. Um pedaço de jornal rasgado de sabe-se onde em cima de uma poça de xixi na esquina do barzinho. O tapetinho da cozinha dobrado em cima de um montinho de cocô.
Foi até a área dos fundos da casa, e viu que a caixa de areia estava horrível, suja, fedorenta, com moscas pousadas em cima dos cocôs ressecados. Franziu a testa. Tinha esquecido de comprar a maldita areia de novo, e a empregada tinha esquecido de avisar de novo, e deixara a sujeira toda lá, para ela adivinhar que tinha que trocar a areia.
Voltou na sala, e as gatas estavam deitadas placidamente sobre o sofá, tentando cochilar apesar da chegada dela, as barriguinhas subindo e descendo com as respirações rápidas. Um momento de ternura encheu seu coração. Elas podiam ter avacalhado tudo, cagado o sofá e o tapete, mijado na toalha de mesa, emporcalhado a casa toda. Ela supôs que era assim que um cão faria, naquelas condições. Suspirou.
“Amo vocês, minhas bobonas”.

Foi até elas, que dormiam aninhadas umas nas outras, e abraçou-as de vez, apertando umas contra as outras, que rapidamente reclamaram.

“Vocês podiam ter acabado com tudo mesmo… Mas fizeram as coisas tão limpinhas. Aposto que ficaram um tempão se segurando para não sujar a casa toda”.
A mais velha delas olhou a humana com quem vivia com seus olhos muito sábios, e se indignou em silêncio.
“Não pense que fizemos isso por você. É apenas da nossa natureza”.

publicado em Maio 15, 2008 às 8:14 pm
nas categorias Inspirações súbitas
Bete Bee

scorpio V

SCORPIO

Encontraram o corpo dele numa praia. Alguns pescadores estavam passando de madrugada e viram o corpo na linha da água, vestido, sem os sapatos. Num montinho de areia ao longe estava um celular, a carteira, os óculos.

Algumas testemunhas dizem tê-lo visto no fim da tarde anterior, sentado na areia, olhando o pôr-do-sol e falando no celular. Ele parecia bastante emocionado, gesticulando rápido, às vezes erguendo a voz, e uma moça disse que ele parecia estar chorando. Não conseguiram entender o que ele dizia. Ninguém apareceu para relatar se algo acontecera depois disso.

No laudo da autópsia, a causa mortis. Ele não havia se afogado ou asfixiado, como os policiais originalmente pensaram. Exames toxicológicos detectaram altas presenças de uma neurotoxina, porém não conseguiram identificar qual, nem de que tipo, era um exame difícil, e a morte já ocorrera há muitas horas. O horário preciso não pôde ser definido, mas acontecera um pouco depois do crepúsculo.

O celular tinha o registro das últimas ligações, entre elas chamadas para a casa de Paulo, dos pais, e de um amigo. Todas elas de antes do meio-dia anterior à morte. Nenhuma ligação na hora do pôr-do-sol. O amigo disse que ele tinha ligado para perguntar se ele sabia como chegar naquela praia. Não havia nenhum registro de ligações recebidas.

Na casa de Paulo encontraram páginas e páginas de cartas escritas para Tahine. Nenhum conhecido jamais tinha ouvido falar dela. Procuraram os cadastros dos clientes da loja de videogame, que ainda estava guardado, e não encontraram nenhum registro com aquele nome.

Haviam poucas pessoas no enterro. Uma das tias disse ter visto uma moça muito jovem, muito bonita, que ela não conhecia, chorando muito. A moça foi embora amparada por um rapaz alto e loiro.

Neurotoxinas são os principais componentes do veneno dos escorpiões.

publicado em Maio 9, 2008 às 6:34 pm
nas categorias Eros
Bete Bee

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