
Ato 1 Cena 1
Cenário: Praia genérica, ao anoitecer. Surgem as primeiras estrelas.
Personagens: Des, Smith, Figurantes passando esporadicamente.
Des e Smith caminham perto da linha da água. Ela de vestido branco comprido, ele de calça preta, sem camisa. Ambos emburrados.
Ouve-se o barulho das ondas ao fundo. Vento frio.
D - Você disse que não gostava de praia.
S - Eu não gosto.
D - Então por que veio?
S - Queria estar com você. Acho que é um bom motivo. Se você quiser, eu vou embora. (close. vêem-se lágrimas em seus olhos)
D - Porque está chorando?
S - Não aguento mais essa situação. Amo você e não posso lhe ter. Quero você, nunca quis tanto algo na vida. Mas quero inteira, não apenas parte.
D - (Silêncio por alguns minutos. Suspira.) Eu não queria que chegasse nesse ponto, era o que eu menos queria. Não sofra por minha causa.
S - Eu sei que eu não devia sofrer. Minha mente fica dizendo que você fez tudo de propósito, para brincar comigo. Não consigo tirar essa idéia da mente. Ela me transtorna. Estou enlouquecendo.
D - Porque a gente parou de se ver você acha que eu só queria brincar com você? Você sabe por que eu fiz isso.
S - Não adianta argumentar. Fico pensando que se você não quisesse me magoar realmente teria ficado comigo.
D - Você até que é bem cínico para alguém que prometeu nunca me cobrar nada. (amargura na voz)
S - Mas eu não sabia ainda que você era uma maldita que gosta de brincar com o coração das pessoas! Eu não fui o primeiro, admita. Você dá o primeiro gosto e depois vai embora deixando o trouxa, no caso eu, para trás!
D - (Começa a chorar devagar, em silêncio. Anda mais rápido). Vá embora! Você não tem o direito de falar assim. Se era para isso, porque veio?
S - (Gritando). A verdade dói, não é? Corra, vá correr de novo para os braços dele. E reze para ele ainda querer você de volta! Seria bem feito para você se ele não quisesse! (Começa a correr atrás dela).
D - (Continua correndo, chora em desespero)
S - (Alcança-a correndo, derruba-a no chão, a areia voa. Abraça-a com força, apesar da resistência, joga o peso do corpo sobre ela para evitar que ela levante). Amor, escute.
D - Escutar o que? O que você quer? Me largue! (se debate)
S - Fique quieta, por favor. Escute. Desculpe. Não sei porque disse aquilo. Eu estou enlouquecendo. Eu amo você. Demais, tanto, que está transbordando. Tanto que tento lhe ferir para aplacar a minha dor, ou para não estar só na dor… Desculpe, mil vezes desculpe.
D - Não, vá embora. Não quero ouvir mais nada. Não mereço isso!
Smith a beija, com força. Ela para de falar. Retribui o abraço, o beijo, mas há raiva. Os dois continuam chorando.
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CENA 1 ATO 2
Smith e Des estão deitados lado a lado, na areia, no local em que caíram. Ambos olham para cima, para o céu. Os corpos não se tocam mais. Barulho de mar.
S - Me desculpe.
D - Não.
S - Por favor.
D - Não.
S - Eu fui um idiota completo. Disse um monte de besteiras. Me perdoe.
D - Concordo. Mas dessa vez não vou lhe perdoar.
S - Onde você está morando?
D - Não lhe interessa.
S - Por que você sumiu daquele jeito?
D - Você ainda pergunta?
S - Não deixou telefone, notícia, nada. Passei dois meses que nem um maluco lhe procurando.
D - Eu disse que ia mudar, que ia ficar sem telefone.
S - Mas sumiu sem deixar rastro.
D - Nem tanto. Você me achou.
S - Deu um trabalho da desgraça.
D - Por que veio? Para me agredir?
S - Não consegui esquecer você. Você termina com ele e some da minha vida. O que você queria que eu pensasse?
D - Eu precisava esquecer. De tudo. De que terminei com ele porque escolhi a carreira ao invés do compromisso.
S - Precisava sumir daquela forma?
D - Sim.
S - Não pensou no que ia ser de mim?
D - Achei que seria melhor para você. Afinal, eu fui embora de lá.
S - Eu lhe fiz uma promessa, esqueceu?
D - Não. Só está aqui para isso, então? Veio matar a vontade.
S - Sim e não. Quero ter você, essa vontade me corrói. Mas queria saber como você estava, se estava bem. Estava morto de saudades. E ninguém me dizia onde você estava. Então fiz o diabo para conseguir.
D - Quem foi o delator?
S - V.
D - (Silêncio. Estremece de frio)
S - Por que o tremor?
D - Frio. (Começa a se levantar, e tirar o vestido)
S - (Incrédulo) O que vc vai fazer, sua louca?
D - Nadar.
S - Com frio?
D - Preciso esfriar a cabeça.
S - Quer que eu vá embora?
D - Na volta eu te digo. (Se atira no mar, começa a nadar para fora)
S - (Para si mesmo) Mulher louca. (Sorri e fica observando)
D - (Retorna após dez minutos, pingando, gelada) Levante. Vamos conversar decentemente. Moro bem perto.
Saem caminhando.
CENA 2 ATO 1
Cenário: Interior de um apartamento. Sala. Paredes brancas, penumbra cortada por um abajur ligado, emitindo uma luz azulada que se irradia pela sala. Poucos móveis: uma mesa, 3 cadeiras, um sofá azul escuro, televisão. Um gato listrado dorme sobre a mesa. Nas paredes, quadros surrealistas. Um celular pisca na penumbra.
Barulho de chave na porta. A porta se abre. Os dois entram.
D - Vou lhe dar uma toalha. Venha por aqui.
(Andam pela casa, ela entra num banheiro, abre um armário e tira uma toalha, entrega a ele).
S - Obrigado. Tomo banho aqui mesmo?
D - Sim. Eu uso o banheiro do quarto. Me espere na sala quando terminar.
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CENA 2 ATO 2
Smith anda pela casa, observando. Está com outra roupa, calça preta, camisa branca, casaco preto. Temperatura no termômetro de parede: 12ºC.
O gato o observa.
Des retorna, calça e blusa preta, casaco verde escuro, cabelo molhado.
D - Gostou?
S - Ahã.
D - Não está com vontade de redecorar, está?
S - (Sorri) Você nao mudou nada.
D - É? Bom, seis meses nao mudam ninguém.
S - Depende do quanto você sofre nesse meio tempo.
D - Eu já sofri muito antes, nao é agora que ia mudar alguma coisa.
S - (Senta no sofá) Sente aqui.
D - Estou bem em pé.
S - Sente aqui, teimosa! Está com medo?
D - Não. Mas não pense que lhe perdoei pelo que disse.
S - Quantas vezes vou ter que pedir desculpas?
D - Não sei.
S - Droga! Estou com fome, para variar.
D - Quer comer algo?
S - Seria bom.
D - Venha.
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CENA 2 ATO 3
Cenário: Cozinha asséptica. Branca, com leve luz azulada cortando a penumbra.
Smith está sentado sobre uma mesa, Des procura algo na geladeira. Retira um pacote, coloca no microondas, liga.
Senta numa cadeira perto dele.
S - Como está a vida?
D - Corrida.
S - Não peguntei sobre isso.
D - O que você quer que eu diga?
S - (Sorri) Que sentiu minha falta já é um bom começo.
D - E se eu disser que não?
S - Vai estar mentindo.
D - Você também não mudou.
S - Pode ser.
A campainha do microondas apita. Des levanta, tira o pacote, abre e coloca o conteúdo no prato.
Como isso é irrelevante, o conteúdo não é mostrado. Des leva o prato até ele. Ele come.
Ambos em silêncio. Ele termina.
S - Estava bom, obrigado. Quando é que você vai matar o resto da minha fome?
D - Antes você não era tão brutal.
S - Antes eu não estava tão obcecado por você.
D - Não acredito que você só veio para isso.
S - Não foi só para isso. Mas acho que vai lhe fazer bem uma experiência nova (sorriso malicioso).
D - E para você?
S - Confesso que vai acalmar meu coração.
Toca o telefone na sala. Des levanta e se dirige à sala. Atende o telefone. Caminha até o quarto, mexe em alguns papéis numa mesinha enquanto fala com alguém. Smith entra, senta na cama, olha ao redor. Levanta, abre a janela, senta de novo. Está inquieto.
Des senta em frente à mesa, confere papéis. Termina a conversa, desliga.
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CENA 3 ATO 1
Cama. Ambos deitados, lado a lado, de frente um para o outro. Se beijam. Flashes começam a se suceder, movimentos harmônicos, sincronizando-se, sucedendo-se. Flashes, flashes.
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CENA 3 ATO 2
Cama. Deitados lado a lado. Ela de olhos fechados, aninhada no ombro dele. Ele com olhar distante, mas sereno.
S - Sometimes I think I am a mistake.
D - (Sonolenta, ainda de olhos fechados) Why?
S - I have changed your life.
D - And so?
S - Maybe it wasn’t right.
D - Maybe. But even if it wasn’t right, you’re still my favorite mistake.
S - (Faz silêncio. Fecha os olhos)
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FIM
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